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Monday, August 21, 2006
Revista Gestão Cooperativa ed. Nº 23 – Dezembro 2005
A queda do Muro de Berlim
Por Gestão Cooperativa
A queda do Muro de Berlim em 1989 rompeu com os paradigmas da dicotomia econômica capitalismo/marxismo, mas não outorgou à sociedade contemporânea o aval necessário para a satisfação de suas necessidades sociais, as quais, na realidade, lograram aumentar, em virtude dos ditames do capitalismo exacerbado do final do último século.

A sociedade órfã do “welfare state” (estado do bem-estar) tornou-se cativa do que se engendra perverso na globalização: a informação em tempo recorde alcançando todos os continentes ao mesmo tempo, padronizando os mercados, estimulando a concorrência cada vez mais acirrada, o que, de um lado, beneficia o consumidor, mas por outro, aumenta a disparidade da distribuição de renda, gera desemprego e contribui para o aumento da exclusão social.

Como conseqüência, aumentam os debates em torno de uma maior valoração das dimensões não materiais da vida social, onde aportam conceitos de uma sociedade menos consumista, mais democrática e inclusiva. Esses conceitos se fundamentam no resgate de valores capazes de fortalecer vínculos sociais, em ambientes que se tornam eminentemente econômicos no cotidiano das pessoas.

A sociedade busca nas organizações de terceiro setor e nas sociedades de economia social (termos que na Europa se confundem) o norte necessário para dirigir seus debates e pesquisas nessa área, pois são essas instituições (e entre as de economia social podemos situar as sociedades cooperativas) que detém o poder de enfrentamento necessário face à lógica implacável dos mercados, pois têm sua filosofia centrada no ser humano e em valores de solidariedade e ajuda mútua.

As sociedades cooperativas, atuando em todos os segmentos da atividade humana, possuem no cerne de sua doutrina, as respostas para essas inquietações contemporâneas, uma vez que admitem a possibilidade de subordinação das questões sociais às econômicas e essas àquelas, através de um equilíbrio entre a eficiência econômica e a eficácia social. Desde os primórdios de sua constituição, reguladas tão somente por seu estatuto, as cooperativas preocupavam-se com a pessoa, sua educação e forma de participação, com o trabalho como promotor de auto-estima e referência social, com a distribuição de renda e ainda, com a sociedade onde se inseria.

O tripé das questões econômicas: produção, distribuição e consumo; o trabalho e a divisão social do trabalho; as preocupações com a sustentabilidade ambiental e a crescente exclusão social; podemos analisar o cooperativismo moderno como alternativa para a superação desses problemas e suas variáveis, pois ele reúne os valores e princípios necessários (e capazes) para regular as relações que decorrem da ação do homo oeconomicus, enquanto preserva uma ética social que privilegia a ampliação do espaço democrático, através da participação mais ativa do cidadão no destino da coletividade.

A corrida capitalista pelo lucro, orientada por viseiras sociais, propicia uma profecia apocalíptica para a humanidade. A empresa cooperativa, com seu compromisso social e sua identidade coletiva, volta seu olhar para a sociedade em seu entorno, tanto no que diz respeito à esfera produtiva, quanto no que se refere às suas demandas sociais e lhe descortina um universo de opções inclusivas, gerando postos de trabalho e distribuição eqüitativa de renda.

Portando um ideal societário que dá primazia às pessoas e ao trabalho sobre o capital, atuando autônomas em relação ao Estado, identificam-se as sociedades cooperativas como uma terceira via econômica que, resistindo à racionalidade hegemônica, instrumentaliza o cidadão em sua busca de melhor qualidade de vida, permitindo a sua realização econômica e social, em conjunto com sua comunidade e outras ao seu redor, numa rede única de intercooperação e solidariedade capaz de fazer frente às mazelas sociais que assolam a humanidade no início desse terceiro milênio.

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